domingo, 2 de abril de 2006
Música baiana com tecnologia por Lyana Peck Guimarães
Axé & Cia. e Studio R firmam sétimo ano de parceria no carnaval de Salvador
Trio Axé & CIA Studio R - Babado NovoA festa é tipicamente brasileira, mas a maioria dos equipamentos que fazem o carnaval de Salvador acontecer vem de empresas estrangeiras. Indo de encontro a esta tendência, há sete anos a Axé & Cia possui uma parceria com o fabricante nacional de amplificadores Studio R, o qual fornece toda a amplificação dos trios da empresa. Consolidando essa união, no carnaval de Salvador deste ano a A&C lançou o trio Papa com a banda baiana Babado Novo, valendo-se da recente Série X de amps da Studio R. São cerca de 23,8 metros de comprimento e mais de 120 dB de pressão sonora proporcionada por mais de 50 amplificadores. A convite das duas empresas, M&T esteve lá para conferir a novidade.

A Axé & Cia está há 13 anos no mercado de construção e sonorização de trios elétricos, já tendo trabalhado ao lado de grandes nomes da música baiana, como Banda Eva e Chiclete com Banana. Este foi o terceiro ano com o Babado Novo, grupo que, apesar de pouco tempo de existência, já tem grande apelo junto ao público, graças à carismática cantora Cláudia Leite. O Babado ficou com o trio principal e lançamento da empresa, mas a A&C ainda conta com três outros trios menores, um com a Timbalada, outro com o Pachanca, ambos no carnaval de Salvador, e outro no interior. Os quatro trios contam com amplificadores somente da Studio R.

A idéia de criar o Papa surgiu no final do ano passado. O Babado Novo, que possui contrato com a Axé & Cia, pediu um trio mais moderno e com som mais potente. Como a empresa já queria se manter atualizada, atendeu ao pedido e partiu pra criação do novo trio. Robério Oliveira, dono da A&C, diz que a idéia era que "o carro tivesse um novo e avançado design, que pudesse oferecer um conforto a mais para os artistas". Para tanto, foi contratado o arquiteto Nunes da Mata, além do já membro da empresa Jeferson Costa, que ficou responsável pelos camarins.

O Papa conta com algumas singularidades, como uma passarela central que se eleva em até 2,1 m, colocando Cláudia Leite em primeiro plano. Esta plataforma é o que faz a conexão do trio com a parte da frente, que, diferentemente da maioria dos trios, foi construída em cima do cavalo mecânico, e não no corpo do caminhão. Além disso, da parte de baixo dessa passarela sai a cobertura do trio, para momentos de chuva. Robério diz que essa cobertura é diferente, cobrindo todo o trio rapidamente, sem precisar de barragens e sem alterar seu visual.


Amplificadores Studio R
À direita e no alto, os novos amplificadores da Studio R

O grande destaque do áudio do trio, segundo a A&C, fica por conta dos amplificadores da Studio R. "Esses equipamentos nos deram muito mais eficiência, mais volume, mais punch no som", diz Robério. Além disso, foram colocados novos geradores, dois de 60 kVA, o que proporciona muita força. O design do PA também é diferente da maioria dos demais trios. De projeto acústico de Carlos Correia, projetista e consultor da Beyma, o PA é ovalado, o que, segundo Robério, "desafia as leis da acústica".

O responsável por todo o projeto de sonorização e cabeamento do Papa é o técnico Jeová Santana, há sete anos na empresa, com suporte do seu assistente Fernando Gomes. Os engenheiros foram Ângelo Oliveira e Aelson Costa, e a arquitetura de fibramento foi de Jairo Vieira. Coordenando toda a parte técnica do projeto estava Sílvio Naziozeno. Foram três meses de construção, envolvendo cerca de 70 pessoas. O processo foi realizado pela própria Axé & Cia em conjunto com a empresa JA Serviços, no galpão de 6 mil metros quadrados da A&C, localizado em Eunápolis, Bahia.


A parceria

Robério enviou um projeto para Samuel Monteiro, da Studio R, procurando fazer mais uma parceria com a empresa, que há sete anos trabalha com a A&C. O objetivo era aparelhar o Papa com os amps mais recentes e potentes da empresa, chegando a 10 mil watts RMS cada. Samuel diz que, como o "projeto era revolucionário", a parceria foi realizada.


Jeová e Robério.
O técnico Jeová Santana, ao lado de Robério Oliveira, proprietário da Axé & Cia

Segundo Samuel, a Studio R não possui planos específicos para trios elétricos e carnaval. Ele diz que o uso dos amplificadores da empresa, nessas situações, vem da sua "capacidade de suportar variações de rede e clima tropical extremo, o que acontece num trio". Além disso, ele ressalta que, apesar de os amps serem leves e compactos, eles geram grande potência, o que também é importante nessas aplicações. Para a empresa, um trio elétrico serve como um showroom. "Toda vez que um trio Axé & Cia toca em alguma cidade, a procura por nossos equipamentos nas lojas locais aumenta consideravelmente", diz Samuel.

Entretanto, não basta servir como vitrine, o trio tem que ser de qualidade. "Tem que ser bem projetado e, principalmente, bem trabalhado e mantido posteriormente, caso contrário ele acaba mesmo é queimando uma marca", conta Samuel. Assim entra a A&C, que procura investir em bons equipamentos e possui uma equipe técnica de qualidade. Praticamente todo o projeto dos trios da empresa foi elaborado por seus funcionários.


Fazendo o som

Controlando o som do PA e monitor há uma mesa MH4, da Soundcraft, de 48 canais. Para Jeová, "falta canal", afinal são 13 músicos no palco, sendo 11 entradas somente para a percussão. Mas por o Babado Novo estar utilizando uma bateria eletrônica V-Drum TD-20, da Roland, conseguiu-se mais espaço na mesa devido ao número reduzido de entradas para bateria, em comparação a uma acústica.


O console Soundcraft MH4, de 48 canais, usado no trio Papa

Apesar de os diversos instrumentos de percussão ficarem localizados um do lado do outro, Jeová afirma que não há problemas de vazamentos nos microfones. Segundo ele, isso se deve "à eficiência dos falantes, à qualidade dos amps, e claro, às manhas de tanto tempo fazendo a sonorização de trio!".

Além do console, PA e monitor também compartilham alguns periféricos. São compressores dbx, sendo dois 166A e dois 160XT; dois quad gates da Klark-Teknik; dois equalizadores 360, da Klark-Teknik; dois compressores dbx 166 para os graves, como bumbo e surdo; e uma bateria eletrônica D4, da Alesis. Somente para o PA há dois processadores DP226, da XTA, e um compressor quádruplo da Klark-Teknik, e, exclusivamente para o palco, há três equalizadores da Yamaha.

Jeová diz que neste trio Papa ele deu "uma simplificada no set", por questão de espaço e necessidade, pois "esse tipo de música não precisa de muito efeito". Assim, ele lança mão de poucos efeitos, somente reverb e delay, para "dar uma ambiência na voz". Para tanto, utiliza um Yamaha SPX 990 e um Lexicon LXP15.

No palco, a microfonação fica a cargo dos microfones dos modelos SM 57 e 58, da Shure. O sistema de transmissão para a mesa, além dos modelos com cabo, varia entre wireless da Shure, AKG e Sennheiser. Todos os músicos contam com monitoração in-ear da Shure, mas há ainda seis monitores coaxiais de 15'' da DAS e dois de 12'' da Attack, com dois falantes e um driver. Atrás do baterista, Jeová posicionou dois sistemas de sub para monitoração dos sons de bumbo, surdo e tons da bateria eletrônica, com objetivo de conferir pressão para o músico.

O sistema de PA de Carlos Correia é composto por mais de 230 falantes e mais de 70 drivers, com todas as caixas cornetadas. Na parte frontal do Papa estão 48 falantes de 15'' para graves; 28 drivers K8, da DAS; e 28 falantes de médio-grave, cuja dimensão é mantida em segredo pela Axé & Cia., por se tratar, segundo ela, de um dos seus diferenciais, responsável pela forte presença de som do trio. Nas laterais há 40 falantes para graves, de 15''; 36 dos tais falantes de médio-grave; e 24 drivers D4 4000, da Selenium. Finalizando o sistema, no fundo estão 48 falantes de 15'', 32 falantes de médio grave; e 20 drivers K8, da DAS.

Na parte inferior do trio, ao lado da área dos confortáveis camarins refrigerados, ficam os amplificadores da Studio R, todos de desenvolvimento totalmente nacional. Empilhados em quatro colunas, estão 12 do modelo Z10, oito do Z7 e seis do X1, para as caixas da frente e fundo, e dez Light Heavy-Duty, nove Seven Heavy-Duty e seis X1 para as laterais. "Nosso destaque é a Studio R", diz Jeová.



Amp Jazz Chorus e set de pedais

Segundo a Studio R, o Z10 é o amplificador de maior potência do mercado, com 10 mil watts RMS em dois ohms. Da mesma família, o Z7 produz 6.400 W RMS de potência, em dois ohms, que Samuel diz ser o mais leve da categoria nessa faixa de potência. O X1, de 1,2 mil watts RMS e o mais recente, possui um processador para garantir linearidade da potência. Os dois modelos da linha Heavy-Duty são mais antigos, utilizados há sete anos pela A&C em outros trios, sendo adaptados nesse novo projeto.

Todo o backline também é da A&C. Ele é composto por um amp de guitarra Roland Jazz Chorus e outro, com falante de 12'', da Crate; sistemas da Hartke Systems 7000 e Gallien-Krueger 400RB para o baixo, com quatro falantes de 10'' e dois de 15''; e uma bateria Pearl Export, que não foi utilizada com o Babado Novo. Jeová conta que esta bateria tem um bumbo reduzido, de 20'', por ele ser trigado na drum machine D4 da Alesis, o que confere o punch de um bumbo maior.

Para conhecer mais os amplificadores da Studio R, visite o site da empresa: www.studior.com.br


Axé com bateria eletrônica?

Pode parecer estranho, mas a música baiana dos trios elétricos começou com baterias eletrônicas e guitarras elétricas, as famosas guitarras baianas de Armandinho. Com o tempo, elas foram substituídas pelas versões acústicas e pela maior inclusão de instrumentos de percussão. Mas a história parece dar voltas. No carnaval de Salvador deste ano, dois trios valeram-se da bateria V-Drums, modelo TD-20, da Roland.

 
Bateria V-DRUMS, utilizada pela primeira vez pela banda no Carnaval

Os dois adeptos foram os bateristas Marcelo Brasil, no trio da Margareth Menezes, e Buguello, no do Babado Novo, formando o conjunto dos poucos bateristas brasileiros que utilizam esse modelo. Segundo Buguello, a idéia de utilizar a V-Drums no carnaval baiano partiu da Roland, que o convidou a testar a bateria. Ele não nega que sempre teve um preconceito com esse tipo de bateria, pois até pouco tempo atrás ela não supria as necessidades, se comparada a uma versão acústica. Mas ele aceitou o convite e foi conhecer essa novidade, lançada no Brasil no ano passado. "Eu tive uma surpresa muito grande quando sentei na bateria e toquei", diz Buguello. "Ela tem todos os recursos que uma bateria acústica oferece, tem uma sonoridade muito boa, com recursos muito bons mesmo. Está me ajudando bastante, e estou muito feliz com ela", explica.

A ajuda, segundo Buguello, vem tanto na sonoridade quando na praticidade. Não esquecendo, é claro, do bolso. Com ela se gastam menos baquetas, não se quebram pratos e não se furam peles. E as possibilidades de criação são vastas. No seu banco de programação pode-se escolher o tipo de madeira dos cascos, as polegadas dos tambores, o tipo de pele, o posicionamento de microfone, o uso de abafador, a regulagem da esteira da caixa, a afinação etc. É possível, também, adicionar sons nos aros do tambores, e nos pratos de borracha pode-se programar qualquer tipo de prato (ataque, condução, china, splash, chimbal), tanto em material quando em dimensões. E Buguello lembra: "o chimbal é bastante real, formado por dois pratos, chupeta e pedal com sensibilidade". As ferragens, aliás, são bastante robustas.

O batera do Babado Novo diz que tal bateria eletrônica da Roland é de grande ajuda para os músicos que, como ele, tocam bastante e por muitas horas seguidas. Ele explica: "eu entro no palco, plugo e já saio tocando. E em termos de pegada ela ajuda, porque você não precisa fazer muito esforço pra tocar nela. Se eu tivesse tocando no carnaval com uma bateria acústica, eu estaria 50% mais acabado do que hoje!". Outra questão é a facilidade de montagem, transporte e instalação, afirmadas por Buguello.

Então, é melhor usar bateria eletrônica do que uma acústica num trio elétrico? Para Buguello, sim. "No primeiro show que eu fiz com ela, eu senti uma diferença forte, e a banda também. Mas hoje em dia a gente se acostumou, a banda gostou, a Claudinha [Cláudia Leite, cantora da banda] está muito feliz, e os técnicos de som também adoram, porque é muito mais fácil de trabalhar". Quando a isso, Jeová Santana, técnico da Axé & Cia., confirma. "Por mim só usavam bateria eletrônica! Facilita muito nosso trabalho", diz ele.

Veja mais sobre a bateria V-Drums em www.roland.com.br

Matéria publicada na Revista Música & Tecnologia.

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